Como será a Advocacia daqui a dez ou vinte anos? A pergunta parece simples, mas a resposta é tudo menos linear. Sabemos que a profissão está a mudar e que a transformação digital terá um papel determinante nessa mudança. Processos eletrónicos, reuniões à distância, inteligência artificial, automação de tarefas, ferramentas colaborativas e novas formas de organização do trabalho já fazem parte do quotidiano de muitos Advogados e escritórios.
Mas será que a Advocacia do futuro será também uma Advocacia mais sustentável? A resposta não pode ser simplesmente “sim” porque a relação entre tecnologia e sustentabilidade é mais complexa do que a ideia, ainda muito difundida, de que digitalizar significa automaticamente desmaterializar e, por essa via, reduzir o impacto ambiental.
É verdade que a transformação digital pode trazer ganhos ambientais importantes. A substituição do papel por documentos eletrónicos, a utilização de assinaturas digitais, a redução da impressão e do arquivo físico ou a possibilidade de realizar reuniões e diligências à distância podem diminuir significativamente o consumo de recursos e as deslocações. Num setor em que a circulação de documentos e pessoas sempre teve um peso considerável, a digitalização pode representar uma mudança relevante.
A redução das deslocações é, aliás, um dos exemplos mais evidentes: uma reunião que antes exigia uma viagem pode hoje realizar-se por videoconferência, um advogado pode trabalhar parcialmente a partir de casa ou de um espaço próximo da sua residência, equipas geograficamente dispersas podem colaborar sem necessidade de estar permanentemente no mesmo local e, em determinadas circunstâncias, também os próprios tribunais e serviços públicos podem beneficiar de soluções digitais que diminuam deslocações, tempos de espera e utilização de recursos.
A sustentabilidade pode, portanto, começar por ser uma questão de eficiência, mas não termina aí. A digitalização não elimina o consumo: transforma-o. O documento que deixou de ser impresso passou a existir num servidor, a reunião que deixou de implicar uma deslocação depende de equipamentos, redes de telecomunicações e centros de dados, a inteligência artificial que permite pesquisar, organizar ou produzir informação jurídica de forma mais rápida necessita de enormes capacidades de processamento.
O digital não é imaterial. Por detrás de cada ficheiro armazenado, de cada pesquisa realizada e de cada ferramenta de inteligência artificial utilizada existe uma infraestrutura física. Existem computadores, servidores, redes, sistemas de refrigeração, eletricidade, matérias-primas e equipamentos que têm de ser produzidos, mantidos e, mais tarde, substituídos. Os data centers, essenciais para a economia digital, são grandes consumidores de energia e colocam novos desafios ambientais, designadamente num contexto em que a utilização de serviços baseados em inteligência artificial cresce rapidamente.
Esta é uma das grandes contradições da transição digital: a tecnologia pode reduzir determinados impactos ambientais e, simultaneamente, criar outros. Por isso, a sustentabilidade da Advocacia não pode ser avaliada apenas pela quantidade de papel que deixou de consumir. É necessário olhar para o ciclo completo. Que equipamentos utilizamos? Com que frequência os substituímos? Qual é a eficiência energética dos sistemas que suportam a nossa atividade? Que soluções tecnológicas contratamos? Onde estão alojados os dados? Que políticas têm os fornecedores relativamente à energia, à segurança, à reutilização e ao fim de vida dos equipamentos? E, sobretudo, precisamos de perguntar se determinada tecnologia é realmente necessária ou se estamos simplesmente a acrescentar ferramentas a um ecossistema digital já excessivamente complexo.
A inteligência artificial (IA) torna esta discussão ainda mais urgente. A IA poderá transformar profundamente a Advocacia: a sua capacidade de analisar grandes volumes de informação, pesquisar jurisprudência, organizar documentos, apoiar a elaboração de textos, identificar padrões ou automatizar tarefas administrativas pode libertar os profissionais de parte do trabalho repetitivo e permitir-lhes concentrar-se naquilo que verdadeiramente distingue a atividade jurídica – o pensamento crítico, a interpretação, a estratégia, a relação com o cliente, a avaliação de riscos e a tomada de decisão.
Mas eficiência não é sinónimo de responsabilidade. A utilização da IA na Advocacia exige supervisão humana, proteção da confidencialidade, segurança da informação, respeito pelos dados pessoais, transparência e consciência dos riscos associados a sistemas que podem produzir respostas erradas ou enviesadas. Exige também uma reflexão sobre a responsabilidade profissional: a tecnologia pode apoiar o advogado, mas não substitui o seu dever de verificar, avaliar e responder pelo trabalho que apresenta.
Também aqui a sustentabilidade deve ser entendida num sentido mais amplo: uma Advocacia sustentável não é apenas aquela que reduz a sua pegada ambiental, é também uma Advocacia capaz de utilizar os recursos tecnológicos de forma responsável, preservando simultaneamente a qualidade do serviço, a confiança dos cidadãos, a independência profissional e os princípios éticos que estruturam a profissão.
Esta mudança terá igualmente consequências na organização dos escritórios. O modelo tradicional, baseado na presença física permanente, em grandes arquivos e em estruturas hierárquicas rígidas, está a dar lugar a organizações mais flexíveis, digitais e colaborativas. O trabalho híbrido pode reduzir deslocações e contribuir para uma melhor conciliação entre vida profissional e pessoal. A digitalização pode permitir que pequenas estruturas tenham acesso a ferramentas que anteriormente estavam reservadas a organizações de maior dimensão. A tecnologia pode, assim, contribuir para democratizar o acesso a determinados recursos e aumentar a eficiência de escritórios de diferentes dimensões.
Mas também aqui será necessário encontrar equilíbrio. A eficiência tecnológica não pode transformar-se numa cultura de disponibilidade permanente. Se a tecnologia permite trabalhar em qualquer lugar e a qualquer hora, pode também criar a expectativa de que o advogado está permanentemente disponível. Uma Advocacia sustentável deve preocupar-se com o ambiente, mas também com as pessoas que nela trabalham. O bem-estar, a saúde organizacional, a formação e a conciliação entre vida profissional e pessoal fazem parte da sustentabilidade de uma profissão.
O escritório de Advocacia do futuro poderá, por isso, ser mais pequeno em termos físicos e maior em termos digitais. Poderá ter menos papel, menos deslocações e menos processos administrativos repetitivos. Poderá recorrer a ferramentas de inteligência artificial e a sistemas automatizados. Mas terá também de ser mais consciente das consequências das suas escolhas tecnológicas.
Isso significa que a sustentabilidade tem de ser integrada nas próprias decisões de gestão. Não basta comprar uma nova ferramenta porque é mais rápida: será necessário perguntar que problema resolve, que recursos consome, que dados trata, que riscos cria e qual o seu verdadeiro valor acrescentado. Não basta substituir equipamentos porque existe uma nova geração tecnológica disponível: será necessário avaliar a sua durabilidade, eficiência e possibilidade de reutilização ou reciclagem. Não basta falar em trabalho remoto: será necessário garantir que este é acompanhado por modelos de organização que protejam a produtividade, a colaboração e o bem-estar.
A sustentabilidade poderá, assim, tornar-se também um critério de inovação. Durante muito tempo, inovação foi quase sinónimo de fazer mais depressa, com menos custos e com recurso a novas tecnologias. No futuro, talvez tenhamos de acrescentar uma pergunta: podemos fazer melhor sem consumir mais recursos do que aqueles de que precisamos?
Esta mudança de perspetiva é particularmente importante para a Advocacia porque a profissão tem uma responsabilidade que ultrapassa a gestão dos seus próprios escritórios. Os Advogados participam na construção de uma sociedade mais justa e na defesa dos direitos dos cidadãos. E uma sociedade sustentável exige instituições capazes de antecipar os efeitos das transformações económicas, tecnológicas e ambientais.
A Advocacia não pode ficar à margem dessa transformação, mas também não deve adotá-la de forma acrítica. O futuro não será uma escolha entre papel e ecrãs, entre processos físicos e digitais, entre Advogados e inteligência artificial. Será uma questão de equilíbrio entre eficiência e responsabilidade, entre inovação e ética, entre velocidade e qualidade, entre as possibilidades da tecnologia e os limites que devemos saber reconhecer.
A Advocacia do futuro será, inevitavelmente, digital. A verdadeira questão é saber se conseguirá ser também sustentável e talvez a resposta dependa menos da tecnologia que teremos disponível do que das escolhas que fizermos na sua utilização. Porque, afinal, a sustentabilidade não está apenas naquilo que a tecnologia nos permite deixar de consumir. Está também na capacidade de perceber quanto consumimos para produzir essa mesma tecnologia e se esse consumo é justificável.
A Advocacia sustentável será, por isso, aquela que souber fazer da inovação uma ferramenta de responsabilidade: uma profissão mais digital, mas não necessariamente mais dependente, mais eficiente, mas não menos humana e mais tecnológica, mas não menos ética. No fundo, o desafio não é escolher entre inovação e sustentabilidade, mas fazer com que uma passe a ser condição da outra.
A tecnologia pode mudar a forma como fazemos Advocacia. Cabe-nos garantir que essa mudança contribui também para definir uma profissão mais responsável, mais resiliente e mais preparada para o futuro.


