FÉRIAS: O TEMPO EM QUE O CONHECIMENTO RESPIRA
Há uma ideia profundamente enraizada na cultura profissional contemporânea: a de que as férias representam uma suspensão da atividade intelectual. Descansar tornou-se, para muitos, sinónimo de desligar completamente, como se o conhecimento e a curiosidade fossem incompatíveis com o lazer. Mas talvez seja precisamente o contrário.
Ao longo do ano, o exercício da Advocacia vive marcado por prazos, audiências, reuniões, pareceres, clientes, urgências e decisões que dificilmente admitem pausa. O conhecimento que se adquire é, em larga medida, utilitário: lê-se porque é necessário, estuda-se porque o caso o exige, acompanha-se uma alteração legislativa porque dela depende uma decisão imediata. O tempo molda a aprendizagem e condiciona-a.
As férias alteram essa relação. Pela primeira vez em muitos meses, o relógio deixa de impor prioridades e a curiosidade pode voltar a ocupar o lugar que lhe pertence. É talvez o momento em que um Advogado consegue ler um livro que há muito permanecia na mesa de cabeceira, ouvir um podcast durante uma caminhada, visitar um museu sem olhar para o telemóvel ou assistir a uma conferência simplesmente porque o tema desperta interesse. Curiosamente, são muitas vezes essas experiências, aparentemente desligadas da profissão, que mais profundamente enriquecem quem a exerce.
A Advocacia nunca foi apenas uma profissão técnica. É uma atividade profundamente humanista, construída sobre a compreensão das pessoas, da História, da Economia, da Política, da Cultura e das transformações da sociedade. Quanto maior for o universo de referências de um Advogado, melhor será a sua capacidade para interpretar conflitos, compreender contextos e encontrar soluções. Por isso, as férias podem constituir um extraordinário espaço de crescimento profissional, precisamente porque deixam de o ser de forma convencional.
- Ler um romance histórico pode ajudar a compreender melhor a evolução das instituições.
- Uma biografia de um grande líder político ou empresarial pode revelar mecanismos de decisão, negociação e liderança.
- Um ensaio sobre inteligência artificial ou geopolítica pode antecipar desafios jurídicos que ainda nem chegaram aos tribunais.
- Uma exposição de arte contemporânea pode oferecer uma nova perspetiva sobre criatividade, património ou liberdade de expressão.
- Uma viagem permite conhecer diferentes culturas jurídicas, diferentes formas de organização das cidades e diferentes conceções do espaço público.
O conhecimento raramente surge compartimentado. É por isso que tantas das competências hoje consideradas essenciais para a Advocacia nascem fora das faculdades de Direito. As chamadas soft skills — comunicação, empatia, negociação, liderança, pensamento crítico ou capacidade de adaptação — desenvolvem-se muitas vezes em contextos informais. Um curso breve sobre escrita, uma formação em comunicação pública, um workshop sobre inteligência artificial generativa, uma conferência sobre Sustentabilidade ou um seminário dedicado às transformações da Economia Digital podem revelar-se tão úteis quanto muitas horas de estudo estritamente jurídico.
Hoje, felizmente, essas oportunidades multiplicam-se. As universidades de maior prestígio disponibilizam cursos de acesso livre em plataformas digitais. Instituições culturais promovem ciclos de conferências durante o verão. Bibliotecas, fundações e museus organizam programas dirigidos ao grande público. Festivais literários reúnem escritores, historiadores, cientistas e juristas. Multiplicam-se os podcasts de qualidade sobre História, Economia, Ciência, Filosofia, Inovação e Relações Internacionais, permitindo transformar uma viagem de automóvel ou um passeio junto ao mar num momento de aprendizagem.
Também o património oferece oportunidades frequentemente esquecidas. Visitar um tribunal histórico, um arquivo nacional, um centro de interpretação da democracia, um museu dedicado aos Descobrimentos, ao Holocausto ou aos Direitos Humanos pode proporcionar uma compreensão muito mais profunda da evolução das instituições do que muitas páginas de um manual. Da mesma forma, uma viagem a cidades como Estrasburgo, Haia, Bruxelas, Luxemburgo ou Florença pode facilmente combinar descanso com a descoberta de algumas das mais importantes instituições jurídicas e culturais europeias.
Nada disto transforma as férias numa extensão do escritório, pelo contrário. A diferença está precisamente na liberdade com que o conhecimento é procurado. Não existe exame, avaliação ou prazo. Aprende-se porque existe tempo para observar, para ler sem interrupções, para conversar demoradamente, para visitar um lugar com calma ou simplesmente para deixar que uma ideia amadureça. Talvez seja essa a forma mais duradoura de aprendizagem.
Há um velho provérbio português que recorda que “o saber não ocupa lugar“. A expressão mantém toda a atualidade. O conhecimento acumulado ao longo da vida raramente tem uma aplicação imediata, mas acaba quase sempre por revelar a sua utilidade quando menos se espera. Um livro lido anos antes, uma exposição visitada durante umas férias, uma conferência assistida por curiosidade ou um curso realizado sem qualquer objetivo concreto podem, um dia, fornecer precisamente a perspetiva necessária ou uma competência específica para resolver um problema complexo ou construir um argumento decisivo.
Na Advocacia, como em tantas outras profissões, o conhecimento continua a ser o principal instrumento de trabalho. Mas talvez importe recordar que o melhor conhecimento nem sempre nasce da obrigação. Muitas vezes nasce da curiosidade. E poucas épocas do ano são tão favoráveis ao exercício dessa curiosidade como o período das férias.
Descansar não significa interromper o crescimento pessoal. Significa apenas recuperar a liberdade de aprender ao próprio ritmo. E essa poderá ser, afinal, uma das formas mais inteligentes de regressar ao trabalho: não apenas com energia renovada, mas também com um olhar mais amplo sobre o mundo e sobre a profissão.
Para isso há que contrariar a ideia muito enraizada de que férias e desenvolvimento profissional são conceitos incompatíveis. Afinal, é precisamente quando desaparece a pressão do quotidiano que existe maior disponibilidade para aprender por curiosidade, e não por obrigação. Para um Advogado, essa aprendizagem é muitas vezes a mais duradoura, porque nasce da liberdade de explorar temas sem a urgência de um processo, de um prazo ou de um cliente.
É por isso que, nesta edição especial de verão do seu Boletim, dedicamos vários textos a esse ‘casamento’ entre tempo de lazer e tempo de saber, apresentando um conjunto de sugestões, para neste verão, enriquecermos o nosso conhecimento como pessoas e profissionais. Assim, nesta edição, pode:
- TEXTO 01 – Ler as “10 sugestões para um verão rico em conhecimento”, reunindo recomendações concretas para melhorar o seu conhecimento durante estas férias;
- TEXTO 02 – Consultar a nossa “Biblioteca de férias para Advogados”, com uma seleção especial e versátil de livros para este verão;
- TEXTO 03 – Ficar a par, no artigo “Da Biblioteca da Ordem”, da seleção de publicações escolhidas especialmente pelos nossos Colegas da Biblioteca da Ordem dos Advogados;
- TEXTO 04 – Escolher de entre as “10 Ações de formação da Ordem para ver nas férias”, sugeridas pela equipa de Formação da Ordem, a que poderá assistir online; e
- TEXTO 05 – Inspirar-se nas “Escolhas da Equipa do Boletim”, com sugestões de todos os Colegas que, mensalmente, levam esta edição até si.
Tudo opções que demonstram que as férias não representam uma pausa no crescimento pessoal, mas sim, talvez, a única época do ano em que o conhecimento deixa de ser uma obrigação para voltar a ser um prazer. No regresso ao escritório, talvez o maior benefício das férias não seja apenas o descanso, mas a pessoa em que nos tornámos durante esse tempo.


