É hoje muito robustamente sustentado pela psicologia cognitiva, pelas neurociências e pela ciência da aprendizagem, a evidência de que o descanso, a redução do stress, o sono, a curiosidade intrínseca, o lazer e os períodos de ‘mente divagante’ favorecem a criatividade, a consolidação da memória, a aprendizagem profunda e a capacidade de estabelecer novas ligações entre conhecimentos.

É simples: o cérebro aprende melhor quando alterna períodos de esforço com períodos de recuperação. Há um autor que, curiosamente, não escreve sobre neurociência nem sobre aprendizagem, mas que talvez exprima melhor esta ideia: Josef Pieper, no pequeno clássico Leisure: The Basis of Culture (O Lazer, Fundamento da Cultura). A sua tese é a de que o verdadeiro lazer não é mera inatividade, é o estado de disponibilidade interior que torna possível a contemplação, a criatividade e a formação humana. Embora publicado nos anos 1950 do século passado, continua extraordinariamente atual e oferece uma fundamentação filosófica para a ideia de que o tempo livre pode ser um dos mais fecundos espaços de crescimento intelectual e pessoal.

O descanso não é, pois, o oposto da aprendizagem: é, muitas vezes, a condição que a torna possível. Leve estas sugestões para as suas férias!

 

1. Ler um grande romance

A literatura continua a ser uma das melhores escolas para compreender a natureza humana. Obras como Os Maias, de Eça de Queirós, O Processo, de Franz Kafka, Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, ou Mataram a Cotovia, de Harper Lee, ajudam a compreender pessoas, conflitos, injustiças e dilemas éticos — matéria-prima de qualquer Advogado.

2. Ler um ensaio sobre os grandes desafios do nosso tempo

A inteligência artificial, a geopolítica, as migrações, as alterações climáticas, a democracia, a economia digital ou a desinformação são hoje temas incontornáveis para quem trabalha com o Direito. Adicionalmente, para os Colegas especializados em áreas muito específicas, é também uma oportunidade para aprofundar o domínio de matérias que trabalham profissionalmente, sem a pressão do dia-a-dia. As férias são uma excelente oportunidade para explorar autores como Yuval Noah Harari, Timothy Snyder, Anne Applebaum, Fareed Zakaria, Joseph Stiglitz ou Niall Ferguson, entre muitos outros.

3. Fazer um curso online

Nunca foi tão fácil aprender: universidades como a NOVA FCT – UNL, NOVA SBE Executive Education, Católica Lisbon SBE, ISCTE Executive Education, NOVA School of Law, Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa ou Faculdade de Direito da Universidade Lusófona (em Portugal), e Harvard, Yale, Oxford, Stanford, etc. (no estrangeiro) disponibilizam cursos através de plataformas como Coursera, edX ou FutureLearn sobre temas da atualidade. Pode seguir as suas formações intensivas sobre, por exemplo, Inteligência Artificial, Negociação, Liderança, Comunicação, Direito Europeu, Ética, Sustentabilidade ou Economia. Poucas horas por semana podem representar um investimento duradouro.

4. Ouvir bons podcasts

Uma caminhada ou uma viagem de automóvel podem transformar-se num momento de aprendizagem. Em termos de temas, há para todos os gostos: História de Portugal, Economia, Relações internacionais, Ciência, Filosofia, Tecnologia e/ou Comunicação. Lembre-se: o importante não é acumular episódios, mas encontrar novas perspetivas.

5. Visitar museus, exposições e monumentos

A Advocacia vive da compreensão da sociedade. Uma exposição sobre direitos humanos, uma coleção de arte contemporânea, um museu de História ou uma mostra sobre fotografia documental podem revelar formas diferentes de olhar o mundo. Em Portugal existem dezenas de excelentes opções, mas as férias podem também ser uma oportunidade para descobrir grandes museus europeus como o Prado, o Louvre, o Rijksmuseum, o British Museum ou o Museu Judaico de Berlim.

6. Conhecer lugares que contam a história do Direito

Uma viagem pode incluir locais profundamente ligados à construção da democracia e da justiça. Entre muitos exemplos tem o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (Estrasburgo), o Tribunal de Justiça da União Europeia (Luxemburgo), o Tribunal Internacional de Justiça (Haia), o Parlamento Europeu, a Casa da História Europeia (Bruxelas), o Museu do Holocausto (Berlim) ou o Memorial da Paz (Hiroshima), entre muitos outros. São visitas que ajudam a compreender como o Direito se constrói a partir da História.

7. Participar num festival literário ou numa conferência

O verão é particularmente rico em iniciativas culturais: festivais literários, encontros de ciência, ciclos de conferências ou debates sobre atualidade permitem contactar com investigadores, escritores, jornalistas, economistas e cientistas. O conhecimento nasce muitas vezes da interdisciplinaridade.

8. Aprender uma competência nova

Nem tudo precisa de ser jurídico: um curso breve de fotografia, escrita criativa, oratória, línguas, programação, análise de dados ou comunicação pode revelar-se extremamente útil para qualquer Advogado. A profissão exige cada vez mais capacidade para comunicar, adaptar-se e aprender continuamente.

9. Ler jurisprudência… por curiosidade

Sem pressão profissional. Escolher um grande acórdão constitucional, uma decisão histórica do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos ou um caso emblemático do Supremo Tribunal dos Estados Unidos pode ser um excelente exercício intelectual quando realizado sem a urgência de um prazo processual. É uma forma diferente de redescobrir o prazer do Direito.

10. Reservar tempo para pensar

Talvez esta seja a sugestão mais importante: vivemos permanentemente ligados à informação, às notificações e à urgência. As férias oferecem algo raro: tempo. Tempo para refletir sobre a profissão, para questionar rotinas, para imaginar novos projetos, para regressar ao essencial, etc. Porque, muitas vezes, o maior investimento profissional não consiste em trabalhar mais, mas em pensar melhor. Muna-se de um caderno e caneta e tome nota das suas reflexões, aspirações, ideias, ou simples pensamentos. Sim, faça-o em papel, porque está provado que o nosso cérebro regista e processa a informação de forma mais eficiente dessa forma.

 

Uma última sugestão

Não procure fazer tudo. Escolha um livro que há muito queria ler. Inscreva-se num curso que desperte verdadeira curiosidade. Visite um museu. Ouça um podcast durante uma caminhada. Converse demoradamente. Viaje. Observe. Aprenda. O conhecimento não exige pressa, exige apenas disponibilidade. E talvez seja precisamente isso que as férias oferecem: a oportunidade de voltar a aprender pelo simples prazer de descobrir.

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