Sobre o Museu do Conflito, iniciativa do Tribunal da Relação do Porto:
“Facto é, porém, que os tribunais apenas existem porque existem conflitos. Estes são inevitáveis ao longo da existência humana. O que define o ser humano, no fim de contas, é o modo como com eles lidamos”
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Juiz-desembargador, José Igreja Matos, é licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e mestre em Direito Judiciário pela Escola de Direito da Universidade do Minho. Exerceu grande parte da sua carreira em Braga, onde reside até hoje. Juiz de Direito desde 1990, exerce funções como Juiz Desembargador no Tribunal da Relação do Porto, desde Setembro de 2012.
É o representante português do Conselho Consultivo dos Juízes Europeus e do Conselho Consultivo da Rede Global de Integridade Judicial das Nações Unidas, além de ter dirigido a Revista Julgar, da Associação Sindical dos Juízes. (2012-2016). É ainda autor de diversos livros e artigos jurídicos, especialmente nas áreas do Direito Processual Civil, Organização e Gestão de Tribunais, Ética e Integridade Judicial e dos Direitos Humanos. |
Como surgiu a ideia de criar o Museu do Conflito? |
Fundado em 1581, o Tribunal da Relação do Porto foi reunindo, ao longo dos séculos, um espólio considerável. A ideia de criar o Museu do Conflito nasce, primacialmente, da existência dessa coleção e depois da vontade de a organizar de um modo coerente, com uma conceção original, própria dos dias de hoje. Valores como o Estado de Direito e a proteção dos Direitos Humanos foram, assim, essenciais para o conceito do Museu. Desde logo, veja-se o nome: Museu do Conflito. Assertivo e polémico, a palavra “Conflito” despertou, como se pretendia, um interesse imediato.
Os tribunais afirmam-se, portanto, como uma conquista civilizacional enquanto baluarte derradeiro contra a lei do mais forte. Construído a partir desta ideia base, o Museu do Conflito transmite, ao longo do seu percurso, uma mensagem de paz e tolerância. Daí que, à saída, o visitante se depare, num painel interativo, com a seguinte frase: “Ao sair por esta porta, que o seu passo simbolize um compromisso coletivo para a construção de um mundo mais justo e pacífico.” |
O espaço está dividido em três áreas distintas. Pode apresentar cada uma delas? |
O Museu do Conflito é um museu bilingue: apresenta-se em português e inglês. Está dotado de ferramentas tecnológicas que permitem uma comunicação interativa. Divide-se em três partes: a primeira estruturada a partir da história da cidade do Porto, em diálogo permanente com a história do nosso Tribunal, ilustrada através dos magníficos painéis que embelezam o Palácio da Justiça do Porto. Um segundo espaço assenta na exibição dos nossos processos emblemáticos – Camilo Castelo Branco, José do Telhado, Urbino de Freitas, a “Bruxa de Soalhães” – apresentados numa perspetiva humanista, sob o título “Processos não são Pessoas de Papel”, a partir da vida vivida destas personagens.
Finalmente, uma última parte que inclui, com honras de parede inteira, o icónico poema de Jorge Luís Borges, “Os Justos”, e que projeta a Justiça de Hoje, expondo princípios como o da independência do poder judicial, e a Justiça do Amanhã, através de conceitos como a inteligência artificial, subordinada sempre à consciência humana. O retorno que temos tido por parte dos profissionais da museologia tem sido tão inesperado como gratificante. Este ano, ganhamos o prémio “Coleção Visitável” da Associação Portuguesa da Museologia e fomos surpreendentes finalistas do Prémio Património Ibérico. |
Qual foi o objetivo do TRP na criação deste Museu? |
Um triplo objetivo: dar a conhecer a um público alargado o nosso espólio, afirmar os valores do Direito, enquanto instrumento civilizacional, contra o arbítrio e a força bruta, e cumprir a missão primeira dos tribunais: servir os nossos concidadãos. |
Quem são os destinatários deste projeto? |
Todos aqueles que desejem visitar-nos. Mas, o Museu tem uma forte componente pedagógica, procurando demonstrar, junto dos mais jovens, que o primado da lei, a empatia e o respeito pelo outro são uma prioridade fundamental em tempos de derivas autoritárias. |
O TRP tem outros projetos em desenvolvimento que pretenda divulgar? |
O Tribunal da Relação do Porto erigiu quatro pilares de intervenção (https://www.trp.pt/pilares): Uma Relação com a Cidade, Uma Relação Solidária, Uma Relação com as Artes e Uma Relação de Cooperação. No primeiro pilar, adotamos uma estratégia pioneira de sustentabilidade ambiental. Somos o único edifício judicial que utiliza, em larga escala, energias renováveis. Assumimos a eliminação do uso do plástico, a separação de resíduos em especial o papel e, enquanto eixo emblemático, a instalação de 83 painéis solares. Na dimensão solidária, uma área de que muito nos orgulhamos, o TRP vem colaborando, de forma concreta, com seis instituições de solidariedade social, em projetos de proteção contra a violência doméstica e de apoio aos socialmente mais frágeis, em particular as crianças. Na vertente cultural, o nosso Tribunal realizou, ao longo dos últimos quatro anos, cerca de cinco dezenas de eventos incluindo espetáculos musicais, concertos e recitais, exposições de pintura, escultura e fotografia (em média, três por ano), apresentação de livros de literatura, poesia, jurídicos ou de divulgação, incluindo-se as duas últimas obras do saudoso Conselheiro Álvaro Laborinho Lúcio. A dimensão e número de eventos não tem comparação com nenhum outro tribunal não apenas a nível nacional, mas, diria, também a nível europeu. Na dimensão da cooperação, destaco, entre múltiplas parcerias, a nível nacional e internacional, duas atividades de 2026 por envolverem a Ordem dos Advogados, através do Conselho Regional do Porto, nosso parceiro próximo, desde a primeira hora: as Jornadas de Direito Comercial, com a realização de quatro conferências e a publicação, no final do ano, do livro das Jornadas, e a segunda edição do “Just’Art”, uma exposição de artes plásticas em que os autores são exclusivamente profissionais forenses. |


Foi Presidente da União Internacional de Magistrados (2021-2023), uma organização mundial constituída pelas mais representativas associações nacionais de juízes de 94 países de todos os continentes. 

Facto é, porém, que os tribunais apenas existem porque existem conflitos. Estes são inevitáveis ao longo da existência humana. O que define o ser humano, no fim de contas, é o modo como com eles lidamos. E aqui alinham-se três possibilidades – não mais do que estas – seja ao nível pessoal, familiar, no bairro, na cidade ou entre países: resolver a discórdia pelo diálogo; apelar a uma decisão racional de um terceiro imparcial – o juiz – após um amplo contraditório, através de argumentos racionais trazidos, nomeadamente, pelos advogados; ou solução última indesejada e terrível, através da violência e da agressão.


