Quase cem anos depois da criação da Ordem dos Advogados, a profissão atravessa uma das mais profundas transformações da sua história: a feminização acelerada e consolidada do exercício da advocacia em Portugal.
Os dados mais recentes mostram que as mulheres são hoje maioria clara entre os advogados — mas essa realidade resulta de uma evolução longa, marcada por várias fases distintas ao longo das últimas décadas.
De profissão masculina a abertura lenta (1926–1990)
Quando a Ordem dos Advogados foi criada, em 1926, a profissão era esmagadoramente masculina. Ao longo de várias décadas, o crescimento do número total de advogados foi moderado — passando de 1.720 inscritos em 1926 para cerca de 8.278 em 1989 — sem que houvesse ainda uma presença feminina relevante.
Só em 1990 é possível observar com rigor estatístico a distribuição por género, e os dados confirmam um cenário de forte desigualdade:
Crescimento acelerado e aproximação à paridade (1990–2005)
A década de 1990 marca o início de uma transformação estrutural. Em apenas 15 anos, o número de mulheres advogadas quase quadruplicou, acompanhando a crescente presença feminina nos cursos de Direito.
Em apenas década e meia, a advocacia aproximou-se da paridade de género.
2006: o momento de viragem histórica
O ano de 2006 constitui um marco simbólico e estrutural: pela primeira vez, as mulheres ultrapassaram os homens no total de advogados inscritos.
Consolidação da maioria feminina (2006–2025)
Após a inversão, a tendência não só se manteve como se acentuou. A diferença entre mulheres e homens cresceu de forma consistente ao longo dos anos. Em 2025, a feminização da profissão é inequívoca:
Entre os advogados com inscrição ativa, as mulheres representam mesmo 60,4%, ou seja, cerca de 6 em cada 10 profissionais.
Uma mudança geracional profunda
A análise por idades revela que esta transformação é ainda mais acentuada nas gerações mais jovens.
A renovação geracional indica que a advocacia do futuro será ainda mais feminina.
Também na Ordem dos Advogados a evolução é feminina, como mostram os dados com a distribuição de Advogadas pelos Conselhos Regionais.
Tendência e projeção: um futuro feminino
A evolução nas últimas décadas confirma uma tendência estrutural:
Mantendo-se a tendência, as mulheres representarão mais de 60% da profissão antes do final da década.
Uma transformação estrutural — mas incompleta
A evolução da advocacia portuguesa nas últimas décadas é um dos exemplos mais claros de transformação de género numa profissão liberal tradicional.
Em pouco mais de 30 anos:
- passou-se de uma profissão largamente masculina
- para uma profissão maioritariamente feminina
- com forte predominância nas novas gerações
Ainda assim, esta transformação não é homogénea em toda a estrutura da profissão. Como mostram outros indicadores, a presença feminina continua menos expressiva nos níveis de topo, nomeadamente nas posições de sócio e liderança das grandes sociedades.
A história recente da advocacia portuguesa é, em grande medida, a história da afirmação das mulheres na profissão. Os dados mostram uma mudança profunda, rápida e consistente — que acompanha a evolução social e educativa do país. Se a advocacia do passado era predominantemente masculina, a do presente tem já rosto feminino. E a do futuro, tudo indica, será ainda mais.











