E na Advocacia e Justiça? Qual o peso das mulheres na Advocacia e em cargos de topo da Justiça como os lugares de ministra da Justiça ou de PGR? Com uma predominância clara de mulheres nos cursos de direito, podemos falar de liderança feminina no setor?
A verdade é que, hoje, as mulheres são maioria no setor da Justiça, mas continuam longe do topo da liderança e sub-representadas em cargos de topo, seja na liderança dos grandes escritórios de advogados, na chefia política da Justiça ou no Ministério Público. Os dados mais recentes revelam um padrão persistente: a feminização da base não se traduz, ainda, numa presença equivalente nos lugares de decisão.
Advocacia: maioria numérica, minoria na liderança
Na Advocacia portuguesa, as mulheres representam cerca de 57% dos mais de 38 mil advogados inscritos, confirmando uma predominância consolidada na profissão. No entanto, essa maioria desaparece quando se sobe na hierarquia.
Nas oito maiores sociedades de advogados, as mulheres representam apenas 36,25% dos sócios, percentagem que diminui ainda mais nos cargos de liderança executiva. Nos principais escritórios — como PLMJ, Morais Leitão, SRS Legal ou Cuatrecasas — a liderança continua maioritariamente masculina.
Os exemplos de mulheres no topo são ainda excecionais. Entre eles, destaca-se Inês Sequeira Mendes, managing partner da Abreu Advogados desde 2021, ou Sofia Gouveia Pereira, à frente da GPA Advogados. Mais frequente é a presença feminina em posições intermédias de poder, como Marta Pontes, co-managing partner da Uría Menéndez em Portugal, ou Paula Gomes Freire, figura central na gestão da Vieira de Almeida.
Apesar de sinais de evolução — como o facto de mais de metade das promoções recentes a sócio já serem de mulheres — a estrutura de liderança continua marcada por gerações anteriores, ainda predominantemente masculinas.
Até na Ordem dos Advogados, em 100 anos de história, houve apenas três mulheres Bastonárias e foi preciso esperar até 1990 para a primeira delas chegar ao cargo (veja os seus perfis, no texto a elas dedicado, nesta edição).
Governo: entrada tardia, mas crescimento recente
A evolução na liderança política da Justiça mostra um percurso distinto, mas igualmente marcado por atraso inicial. Após o 25 de Abril de 1974, passaram quase três décadas sem qualquer mulher à frente do Ministério da Justiça. A primeira nomeação feminina ocorreu apenas em 2002, com Celeste Cardona, marcando uma entrada tardia de uma mulher como ministra da Justiça, num governo.
Desde então, a presença feminina tem vindo a consolidar-se, sobretudo na última década. Entre 2011 e a atualidade, sucederam-se várias ministras, incluindo Paula Teixeira da Cruz, Francisca Van Dunem, que protagonizou um dos mandatos mais longos, Catarina Sarmento e Castro e, atualmente, Rita Alarcão Júdice.
Ainda assim, numa perspetiva histórica, o número de mulheres que ocuparam o cargo continua reduzido face à predominância masculina ao longo de mais de cinco décadas de democracia.
Ministério Público: liderança feminina relevante, mas não contínua
No topo do Ministério Público, a presença feminina também se fez sentir, mas de forma intermitente. Portugal teve, até hoje, apenas duas mulheres à frente da Procuradoria-Geral da República: Joana Marques Vidal, a primeira a exercer o cargo, com um mandato marcante, e Lucília Gago, que liderou a instituição entre 2018 e 2024.
Apesar destes marcos, a liderança feminina não teve continuidade. Atualmente, o cargo de Procurador-Geral da República não é ocupado por uma mulher, refletindo uma alternância que impede a consolidação de uma presença feminina estável neste nível.
Um padrão persistente: progresso sem paridade
A análise dos três planos — Advocacia, Governo e Ministério Público — revela um traço comum: as mulheres conquistaram espaço de forma consistente nas últimas décadas, mas continuam a enfrentar dificuldades no acesso ao topo.
Se, por um lado, dominam numericamente profissões como a Advocacia, por outro, permanecem sub-representadas nas estruturas de liderança, sobretudo nos grandes escritórios. No plano político, a evolução é mais visível, mas recente. Já no Ministério Público, os avanços coexistem com descontinuidades.
A trajetória é de progresso, mas ainda longe da paridade. A liderança feminina na Justiça em Portugal deixou de ser exceção — mas continua, em muitos casos, a ser a exceção no topo.


