Alice Brito é Advogada e defensora da causa feminista. Começou a escrever tarde, como nos conta, com o primeiro livro a surgir em 2012. Nos seus quatro romances até agora editados, retrata-nos um Portugal do Século XX que tende para o esquecimento, aquele dos tempos da sombra, da ditadura e da sobrevivência diária, alheia aos direitos essenciais. A ‘sua’ Setúbal, onde nasceu, cresceu, vive e trabalha, também é protagonista principal nos seus romances.
Na primeira pessoa
Comecei a escrever já tarde. Antes da saída de “As Mulheres da Fonte Nova”, o meu primeiro romance, tinha já publicado vários artigos em jornais e revistas, tendo ainda participado com outros autores em diversos livros. Mas, na verdade, nunca me passou pela cabeça escrever um romance. Mais, considerava que um romance integrava uma categoria inacessível, dada a complexidade da sua estrutura. Num romance confrontamo-nos com a absoluta necessidade de criar um microcosmo que deve ser tão imaginário quanto real, um microcosmo habitado por personagens com a sua vida própria, os seus desejos, memórias, identidades, que nesse mundo paralelo se movimentam, respiram, narrando a sua vida.
Contudo, numas férias, para treinar um novo computador, surgiram “As Mulheres da Fonte Nova” num apelo indeclinável para que a sua história fosse contada. Esse primeiro livro, tal como todos os outros, reflecte as investigações do meu marido, historiador, sobre a cidade de Setúbal, cidade em que nasci e onde vivo. Essa outra cidade, que a História me devolveu de forma sistematizada, era apenas percepcionada, mas não conhecida na sua rebeldia, na sua luta diária pela sobrevivência, e ainda naquilo que haviam sido os seus caminhos amargos ao longo de todo o século XX.
Foi uma aventura, a que se seguiram as outras aventuras, sendo que a mais recente, “Perdeu-se Relógio de Senhora”, irá já para terceira edição, tendo, de algum modo, tocado um público intergeracional.
Nos romances que escrevi, a História do Século XX está sempre presente, tal como a política, essa coisa que o Estado Novo interditou, e a democracia parece querer invisibilizar. Qualquer dos romances pretende ser lugar de memórias, que devem ser contadas para que não desapareçam, levando consigo o esquecimento, transformando o passado numa coisa imprestável.
Vivemos hoje tempos de desmemória, de omissão de um passado que nos é desconhecido, como se houvesse medo de, através desse passado, se ganhar experiência e uma visão de futuro. E isto não se passa apenas em Portugal. O neoliberalismo reinante programou o esquecimento, oferecendo-nos lugares sentados nos sofás para evitarmos olhar a nossa própria vida.
A prática da advocacia é uma experiência muito forte, emotiva, que nos permite observar as pessoas, naquilo que têm de melhor e de pior. Somos todos os dias confrontados com dramas inenarráveis, angústias e deslumbramentos, traições e generosidades.
É, pois, quase impossível que essa visão que se vai ganhando do mundo não se intrometa na escrita de um romance. Do mesmo modo, a linguagem cifrada do direito, esse linguajar jurídico com as suas fórmulas, preceitos e regras, como que se nos cola à pele, e acaba, a maior parte das vezes de forma voluntária, mas também involuntária, por se derramar no texto romanceado.
Em todos os livros que escrevi, aparece sempre uma personagem com ligações directas ao mundo do Direito. Ou é um advogado, ou um juiz, ou um procurador, personagens que, creio, emprestam um certo colorido ao texto. Permitem a entrada no mundo fechado e pesado dos tribunais, com as suas grandezas e misérias.
Penso que a profissão que escolhi tem uma influência determinante na minha escrita e nos livros que fui escrevendo. Mesmo quando nada do que é narrado parece ter a ver com aquele outro mundo, que se pretende à parte, ele está lá, como um gato escondido com o rabo de fora.
Escolho, para terminar, a última frase do livro agora editado: “É no pacto das palavras que o pensamento se esmera”.
Perfil
Alice Brito nasceu em Setúbal, cidade em que vive e que aparece em todos os seus livros. É advogada e defensora da causa feminista. Tem artigos publicados em revistas e participações com outros autores em algumas obras, tendo ainda colaborado em jornais on-line com crónicas periódicas.
Em 2012 publicou “As Mulheres da Fonte Nova”, o seu primeiro livro, já traduzido para alemão, “O Dia em que Estaline Encontrou Picasso na biblioteca” viu a luz do dia em 2015 e em 2019 saiu o seu terceiro romance “A Noite Passada”, que foi traduzido em 2025 para espanhol. Finalmente, em 2026, acaba de sair “Perdeu-se Relógio de Senhora”, um romance que retrata Portugal nos anos de fascismo, através das vidas de três mulheres, “sob o olhar vigilante da polícia política e de uma moral repressiva, num país sob a sombra da guerra colonial e já farto da ditadura”, segundo a sinopse da editora.
Alice Brito escreve preferencialmente sobre o Séc. XX e os grandes conflitos que o marcaram. O período do Estado Novo em Portugal aparece em todas as suas obras, numa tentativa de resgatar do esquecimento aqueles 48 anos de ditadura, como forma de combate à desmemória que marca o tempo em que vivemos. Quem não conhece o passado não cuida do futuro, é o seu lema.
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