Sofia Barata

Advogada

Utilização da Inteligência Artificial na prestação de serviços jurídicos

“If your time to you is worth saving
Then you better start swimming,
Or you’ll sink like a stone;
For the times, they are a-changin’”

Bob Dylan

 

Em julho de 2019 estamos todos conscientes – uns mais que outros, é certo – de que não será possível vencer os desafios dos tempos modernos, em particular os relativos ao futuro do trabalho e ao valor do trabalho na nossa profissão, sem abraçar e compreender as tecnologias que precisamente os tornam modernos. 

O mundo mudou e somos confrontados com os agentes da mudança que se vão instalando, sem retorno: urgência de eficiência e otimização, novos concorrentes (tradicionais, ou não), novos modelos e a pressão nos honorários, e a fulgurante ingerência das novas tecnologias, esta 4ª revolução industrial, em todos os setores da economia.

Há, pois, uma necessidade de olhar com naturalidade e inevitável certeza para a inscrição das novas tecnologias como a Inteligência Artificial (IA) no contexto da prestação de serviços jurídicos. Uma implementação num contexto que vá para além da sua utilização como mera ferramenta de trabalho, num âmbito mais vasto e com o fim de avaliar oportunidades e propor modelos que, tendo em vista a obtenção de inequívocos ganhos de eficiência, tirem partido de uma estrutura alternativa da organização da produção – incluindo a formação dos (novos) Advogados, da reinvenção de modelos de pricing, e da aplicação das novas tecnologias na prestação de serviços jurídicos.

 

Se abordarmos o tema de forma pragmática chegamos facilmente à conclusão de que a digitalização –  em si mesma um desafio que tem de ser ganho – é, sobretudo, um pressuposto absolutamente essencial para que os Advogados possam equacionar abraçar a nova vaga tecnológica e tornar a prestação de serviços mais eficiente e rigorosa num modelo mais apelativo, valorizado e partilhado com e pelos clientes para um entendimento e interação cada vez mais próximos. Logo, uma primeira nota: digital first.

Aceitando a digitalização e interiorizando que a tecnologia em vez de trazer consigo o fim dos Advogados ou a sua substituição por máquinas ou robots permite, outrossim, entrar num período de Renascimento da profissão, perguntamo-nos de que precisamos para implementar de forma consistente, no nosso dia a dia, tecnologias de IA?

Precisamos de dados, informação, de milhares de documentos. Não me parece que valha a pena escrever uma linha que seja neste artigo sobre a quantidade de dados com que nos deparamos todos os minutos, todos os segundos dos nossos dias. A implementação da IA também não se prende, apenas, com a adoção da tecnologia, prende-se particularmente com a coragem de ultrapassar resistências, de vencer a inércia e de querer ter a profissão de volta.

Está escrito nas estrelas que os Advogados serão, diríamos mais cedo do que tarde, instados a equacionar novos modelos de negócio

A tecnologia, essencial e um pressuposto, não se auto implementa, são precisos Advogados neste barco, são precisos Advogados para trilhar este caminho. Somos o que fazemos, o que estudamos e aquilo a que nos dedicamos, e queremos poder focar-nos naquilo em que nos formámos – Direito – e dedicar-nos ao que os clientes pretendem: o aconselhamento jurídico que permita a melhor tomada de decisão. Uma segunda nota: a implementação da IA de forma incontornável e como um hábito, no contexto dos serviços jurídicos de excelência, requer tecnologia com fortes doses de colaboração de investimento humano certo (na nossa profissão, Advogados).

Está escrito nas estrelas que os Advogados serão, diríamos mais cedo do que tarde, instados a equacionar novos modelos de negócio. A digitalização e a aplicação de plataformas de Inteligência Artificial permitirão novas plataformas de entendimento com os Clientes, entregar serviços jurídicos de forma mais eficiente e rigorosa. Na tomada de decisões, os clientes valorizam que sejam tidos em conta fatores como as melhores escolhas na inovação, combinações de novas tecnologias com novas formas de trabalho e novos processos, incluindo uma ainda maior e mais próxima colaboração com os clientes. Obviamente que o aumento da eficiência, rigor e produtividade vai impactar positivamente com vantagens evidentes para os clientes. Uma terceira nota, as tecnologias de IA requerem suporte e liderança forte para que a sua implementação seja um sucesso.

A adoção destas tecnologias disruptivas vai reformular a relação com os clientes que tendem a tornar-se mais próximas e sofisticadamente simples com um impacto não só na forma de prestar e entregar serviços, mas na transparência crescente do próprio relacionamento

Não será necessário enfatizar que as necessidades dos clientes, o crescente volume de dados e conhecimento, e a nova abordagem dos clientes na solicitação de serviços jurídicos é um dos motores impulsionadores desta irreversível evolução com que os Advogados se deparam para conseguirem o seu objetivo último: Melhor servir o Cliente.

A adoção destas tecnologias disruptivas vai reformular a relação com os clientes que tendem a tornar-se mais próximas e sofisticadamente simples com um impacto não só na forma de prestar e entregar serviços, mas na transparência crescente do próprio relacionamento.

Ora, as plataformas de IA acionam várias aplicações para organizar, descobrir e resumir automaticamente informação chave a partir de documentos e dados não estruturados. Trata-se essencialmente de destilação e extração ultrarrápidas de informação de um conjunto caótico de dados. Em vez de filtrar toda a informação manualmente, a plataforma de IA automatiza o processo, lendo e decifrando os documentos tal como um ser humano o faria, mas mais depressa e com maior precisão e capacidade.

Este tipo de plataformas utiliza tecnologia de IA para a análise automática de contratos e documentos É, por exemplo, feita uma primeira leitura dos documentos a fim de identificar anomalias como uma cláusula contratual standard incomum, identificar jurisdições diferentes, ou para detetar uma cláusula de alteração de controlo. Outra nota, estamos ainda nos primeiros tempos e os benefícios têm de ser trabalhados e afinados. É necessária colaboração entre IA e o saber dos Advogados, é necessária uma governance apropriada da nossa interação com as plataformas de IA.

Não só sem prejuízo do que antecede, mas em adenda, acrescentamos que toda a mestria e perfeição da interpretação e da compreensão dos resultados, bem como da aplicação dos mesmos, a recomendação e o conselho jurídico continuam a ser produção de Advogados de carne e osso. E aqui, é como em todas as profissões uns de nós serão melhores, mais bem-sucedidos, mais bem recebidos pelos Clientes.

O desafio é grande, é exigente e a recompensa também o será. Como vantagens serão obtidos ganhos de eficiência e rigor, alinhamentos de processos e previsibilidade nas propostas de honorários. Os Advogados que se veem a braços com o desempenho manual de tarefas rotineiras e repetitivas poderão focar-se em atividades que exigem verdadeiro expertise jurídico, mais produtivas, exigentes e satisfatórias.

A implementação da IA também não se prende, apenas, com a adoção da tecnologia, prende-se particularmente com a coragem de ultrapassar resistências, de vencer a inércia e de querer ter a profissão de volta

Este novo mundo oferece-nos a oportunidade de repensarmos a prestação dos nossos serviços e de equacionarmos novos modelos de negócio. Os Advogados não têm de recear nem a tecnologia de IA, nem a robotização da profissão, mas deverão (ponderar desde já) recear os Advogados que dela fazem uso, pois a vantagem vai ser exponencial.

Os clientes continuam a querer que os serviços jurídicos sejam prestados por Advogados com expertise e conhecimentos jurídicos elevados e talento verdadeiramente humano, mas com a ingerência da tecnologia em todos os setores da economia é também certo que, uma vez disponíveis, vão exigir que os mesmos serviços contem com as vantagens – em particular, a eficiência e o rigor – das novas tecnologias de inteligência artificial e obviamente da digitalização que naturalmente a precede.

Vivemos um momento evolutivo único e irreversível na prestação de serviços jurídicos, temos de nos preparar para uma profissão em que nos são exigidas mais competências. A digitalização e a aplicação de plataformas de IA permitirão entregar serviços jurídicos de forma mais eficiente e rigorosa e estabelecer relações mais próximas e dinâmicas com os clientes, que estão também a experienciar a influência da revolução 4.0 nos seus setores.