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Realidades nuas e cruas: exposição e censura no museu

Sobre a atual “censura” de obras de arte que tem levado museus e galerias a retirarem de exposição obras consideradas “polémicas”.

Maria Isabel Roque

Professora Auxiliar na Universidade Europeia – Laureate International Universities; CIDEHUS-UÉ

Os primeiros museus surgiram nos finais do século XVII com o objetivo explícito de disponibilizar a toda a sociedade os bens patrimoniais que até então se encontravam na posse exclusiva das classes privilegiadas. Os museus de arte constituíam-se como repositórios dos registos materiais, segundo critérios de excelência, exclusividade, autenticidade e originalidade, que, por um lado, educavam os cidadãos e lhes imprimiam uma conduta, e, por outro lado, legitimavam a definição de identidade cultural articulada com os nacionalismos emergentes. O discurso era construído em função destes pressupostos e, por conseguinte, a seleção dos objetos obedecia à pragmática que lhes era subjacente.

A integração do objeto no discurso museológico decorria de uma avaliação extrínseca feita no âmbito da história da arte. Passado este escrutínio, a obra de arte adquiria um estatuto documental, ou de síntese e representação, que a subtraía à crítica, pelo que o público estabelecia uma relação passiva com o objeto exposto, limitando-se a uma atitude de mera observação. O museu, a pretexto da preservação do património e do propósito pedagógico, tornou-se um espaço de controlo incontestado, mas assente em políticas implícitas de censura interna.

Nos finais do século XVIII, os objetos com temas sexuais explícitos recolhidos nas escavações de Pompeia e Herculano foram transferidos para o Real Museu Borbonico (atual Museu Arqueológico Nacional de Nápoles), onde, em 1819, foi criado o Gabinete Secreto, a que apenas era permitido o acesso mediante autorização especial, o qual tem sido referido como paradigma da censura no museu, atendendo também às sucessivas decisões de relativa permissão de acesso ou de total proibição, consoante o arbítrio político mais ou menos liberal, até à abertura definitiva, em 2000.

O museu apropria-se dos objetos para elaborar a sua própria metanarrativa. Afastando-se do princípio da neutralidade, o discurso museológico assume a interpretação.

Pela mesma altura registam-se vários exemplos de exposição permanente de objetos até então proscritos em função da temática sexual explícita: a pintura “L'Origine du monde” (1866), de Gustave Courbet, com a representação da genitália feminina, sem qualquer artifício a dissimular os pormenores anatómicos, integra a exposição permanente do Museu d’Orsay, em Paris, desde 1995; a taça romana conhecida como “Warren Cup” (século I), decorada com cenas homossexuais, está exposta no Museu Britânico, em Londres, desde 2006. Depreende-se aqui uma mudança de atitude do museu em relação à livre exposição da obra de arte. Numa análise acerca deste fenómeno, Walter Kendrick publicou, em 1999, a obra “The Secret museum: Pornography in modern culture”, onde descrevia a contemporaneidade como o início da era pós-pornográfica, na qual a subversão voyeurista é atenuada a favor das considerações estéticas e, por conseguinte, tendente à abolição dos programas censórios.

A atitude mais aberta dos museus face à exposição de obras consideradas sensíveis, não só pelo conteúdo sexual, mas também por questões relacionadas com a política, a religião, a raça ou o género, inscreve-se no quadro das transformações culturais da pós-modernidade e fundamenta-se através do desenvolvimento dos estudos da cultura. O conceito de identidade cultural tornou-se fluido e mutante, obrigando o museu a reavaliar a sua missão em função da pluralidade dos públicos, ao mesmo tempo que lhe permitia reivindicar a sua autonomia face aos poderes instituídos.

O museu apropria-se dos objetos para elaborar a sua própria metanarrativa. Afastando-se do princípio da neutralidade, o discurso museológico assume a interpretação ou a apresentação de uma perspetiva, sem prejuízo de um constante exercício de rigor ético e científico, mas com plena liberdade de expressão. Enquadrado por normativas internacionais, nomeadamente pelo Código de Ética do Conselho Internacional de Museus, a censura, implícita ou explícita, parecia estar definitivamente erradicada.

No entanto, voltaram a surgir episódios de censura à prática museológica. Em 2011, o Museu de Belas-Artes, em Boston, em colaboração com o Museu d’Orsay, organizou a exposição “Degas and the nude”, incluindo representações do nu académico e os monótipos de bordel que constituem parte relevante da obra do pintor; a pretexto do caráter decadente das prostitutas e dançarinas aí representadas, a exposição gerou forte oposição, com insinuações à vida pessoal de Degas. Pode ter sido uma reação de alguns grupos mais tradicionais e conservadores, mas foi, sobretudo, o indício de uma nova forma de fundamentalismo face à expressão artística, em simultâneo com o ressurgimento de um puritanismo que, pelo menos em aparência, estivera adormecido durante décadas. As tentativas de reposição da censura, que pareciam confinar-se a determinados grupos claramente identificados, configuram-se como um fenómeno cada vez mais amplo e frequente.

Há décadas que artistas, historiadores e críticos de arte feministas denunciam a narrativa masculina dominante na história da arte ocidental.

O movimento #MeToo, desencadeado em finais de 2017 na sequência das denúncias de abuso e violência sexual sobre as mulheres, enquadra sucessivas tomadas de posição relativas ao desequilíbrio de poder inerente à representação da mulher na arte, reduzida à condição de objeto de desejo e subjugada ao ideal de beleza definido pelo universo masculino dos artistas. Neste contexto, a nudez não é rejeitada em função do conteúdo erótico, mas como signo da subjugação feminina. Há décadas que artistas, historiadores e críticos de arte feministas denunciam a narrativa masculina dominante na história da arte ocidental, pelo que, neste aspeto, o movimento apenas ampliou a sua mensagem, mas veio também dar um novo impulso ao exercício de censura nos museus, mesmo a propósito de temas até agora consensuais. Tomando o movimento como referência, foi lançada uma petição para que o Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque, retirasse a pintura “Thérèse Dreaming” (1938), de Balthus (Balthasar Klossowski), representando uma adolescente numa posição que deixa ver a roupa interior, sob a acusação de estar a promover uma perturbadora visão sobre a sexualidade infantil e de incitar à coisificação da criança.

Situações similares, em que a opinião pública se manifesta contra a exposição de obras consideradas como potencialmente ofensivas, são cada vez mais frequentes nos Estados Unidos, mas também na Europa. A reação dos museus não tem sido uniforme: umas vezes mantém ou altera a exposição; outras, retira e, em seguida, repõe as obras. A indecisão revela a dificuldade em lidar com esta realidade e em justificar a exposição de obras que a opinião pública denuncia como ofensivas, mas, ao mesmo tempo, sublinha a necessidade de promover o debate acerca da missão do museu e dos critérios que devem presidir à exposição pública da obra de arte, em função da lógica do discurso museológico ou em obediência a movimentos de contestação. A quem não defenda a censura como método compete ficar atento e atuante face à ameaça de novas formas de autoritarismo, tão mais inquietantes e perversas quando tentam camuflar-se atrás de argumentos politicamente corretos.

A autora escreve com o novo Acordo Ortográfico