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Cultura artes & letras

Não me lembro de mim sem cantar

Sou a Helena, sou Advogada e cantora, sou fadista, gosto de música, gosto da vida e da vida que a música me transmite...

Os álbuns de Helena Sarmento

Hoje, talvez devesse alterar a ordem das palavras e dizer “sou cantora e sou Advogada”. Se calhar, até foi isso o que sempre fui: não me lembro de mim sem cantar, as minhas memórias mais antigas são essas. E se o meu grande sonho sempre foi ser feliz, a cantar sempre o fui.

Mas nós somos fruto também das nossas circunstâncias, e, no meu caso, o curso superior aconteceu-me antes de me acontecer ser cantora. Pareceu-me natural, como natural me pareceu que esse curso fosse o de Direito: o meu pai é Advogado e é um homem Bom e Justo. Fui educada com esses princípios e atraída por esse destino. E com os olhos com que então olhava a vida via nesse destino espaço para satisfazer o meu íntimo revolucionário e romântico de querer mudar o mundo.

Que sabia eu, que nasci para gaivota?

A minha vida, outrora privilegiada, simples e leve, mudou muito. O agravamento profundo da doença do meu pai fez-me perder o chão. Sem o fado, e por muito fatalista (e fadista...) que pareça, eu não seria capaz de sobreviver a tanta tristeza. Cantar a tristeza liberta-nos dela; cantar a alegria faz-nos acreditar que a vida é bela. Porque o é! No fado, quando canto, a minha vida simples e leve regressa.

No fado, quando canto, a minha vida simples e leve regressa.

A 13 de Abril estreou Lonjura, o meu terceiro disco de fado. Lonjura é um poema escrito pelo meu pai em dias mais felizes. E canto-o num dos fados que o meu pai melhor cantava – o Fado Menor do Porto.

Chamar este disco pelo nome próprio desse seu poema é a minha homenagem pelo privilégio de o ter como Pai. Também me agrada este título por outra razão: neste disco, em nenhum lugar surge a palavra “saudade”, essa dominadora presença da ausência; “lonjura” é aqui o seu superlativo: a presença da ausência de quem ainda está presente, a mais insuportável das saudades, tecida pelas mãos da doença.

Não obstante, Lonjura é um disco muito luminoso: Fado em Branco (composição original de Samuel Cabral e João Gigante-Ferreira), Fado depois da Tempestade (composição original de Samuel Cabral), Contigo por Lisboa, Fado Jurídico-Criminal (composições originais de André Teixeira), Noite de Inverno e Fado Azul, todos com palavras novas de João Gigante-Ferreira, Fado Carioca (Amadeu do Vale/Frederico Valério, do repertório de Amália, aqui gravado como singela e obrigatória homenagem), Era Um Redondo Vocábulo (de Zeca Afonso) e O Bêbado e a Equilibrista (Aldir Blanc/João Bosco, celebrizado na voz de Elis Regina) são os restantes temas do disco. O que mais desejo é que quem com ele se cruze o sinta com o seu próprio coração e o queira entender pela sua própria cabeça.

Sempre à procura (como da Justiça…).
Texto Helena Sarmento

Ouvir fado jurídico-criminal

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Rubrica promovida pela Comissão para as Letras e as Artes da Ordem dos Advogados