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Cultura Livro de Lembranças

O Homem que morreu duas vezes

O seu caso de espionagem, o julgamento por alta traição, a condenação à forca, tinham sido, assim o procurei demonstrar em livro, mero pretexto para uma jogada diplomática de alto nível. Salazar comprometeu-se no caso. O rei Jorge VI também, ao comutar-lhe a pena. Agora era apenas um rodapé na História. Clandestina a vida, oculta a primeira morte.

Todos os Advogados têm histórias para contar dos inúmeros casos que lhes é dado viver. Embora tenha cruzado a profissão com a escrita, e nesta com a de ficção, talvez um discreto sentimento de pudor me impeça de contar, ainda que com cuidado para não permitir identificação, os episódios com que convivi. Salvaguardado que fosse o segredo profissional, sempre ficaria a sensação de estar a desventrar publicamente a intimidade alheia. E, por isso, este livro de lembranças não recordará os que se me confiaram.

Há, porém, um registo, que levei à escrita e onde, diz quem leu, a minha condição de Advogado acabou por pesar: aquilo que tenho estudado sobre um tema que foi insólito e hoje corre o risco de ser banalizado, o da guerra secreta em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial.
Porque me dediquei ao assunto nem eu sei. Todas as explicações para as nossas atitudes são, quantas vezes, fantasia a dar substância ao acaso ou expediente a encontrar aquilo que é capricho da nossa personalidade.

Sobre isso escrevi livros, vários livros, pelo menos três claramente biografias. Não venho aqui contá-los, porque são irresumíveis, mas sim dizer a propósito deles como surgiu o Advogado, isso de modo evidente na narrativa de vida de um dactilógrafo na Embaixada de Portugal em Londres quando ali estava em posto de embaixador Armindo Monteiro. Recrutado, ainda jovem, em 1943, como agente secreto, pelos serviços alemães e italianos em Lisboa, acabaria por ser localizado, preso, julgado no Tribunal Criminal Central de Old Bailey e condenado à morte por inteligência com o inimigo.

Ao trabalhar no Arquivo Histórico Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros, onde, dossier a dossier, folha a folha, tentava reconstituir esse mundo de sombras em que tudo fora feito para que a verdade fosse ocultada e nenhuma prova poderia ser fiável, cruzara-me com uma notícia do jornal The Times em que se noticiava aquilo que dei como assente teria sido a sua execução, ele e outros de que o jornal revelava os nomes, tornados públicos, terminada a guerra, na Câmara dos Comuns pelo secretário do Interior do Governo de Sua Majestade, Senhor Ede.

Só que, na realidade, estava vivo e eu teria a oportunidade de o localizar em Castelo Branco e tornar assim o que projectava ser um simples apontamento de um livro que estava a escrever numa obra dedicada em exclusivo à sua pessoa. Tudo aconteceu pelo que teimo em considerar a força do acaso, se bem que essas circunstâncias imprevistas se tenham repetido tantas vezes que algo me deveria rever a noção de que é apenas o fortuito, o inesperado, que dita essas extraordinárias circunstâncias.

Um Colega pedira-me para ir a Castelo Branco intervir num julgamento, e é notável que nunca estivera em tal Tribunal e nunca mais se proporcionaria estar; mais, conhecera o Colega num processo em que, patrocinando partes opostas, a nossa relação não decorreu de modo propriamente simpático.
Não ficaria, porém, por aqui a conjunção de improbabilidades.

Ao chegar ao Tribunal aguardavam-se dois alunos, a quem ministrara, numa das universidades a cujo ensino estive ligado, um curso de formação para acesso ao Centro de Estudos Judiciários, ela agora em estágio para juiz, ele para procurador, e que, ao saberem que eu iria ali, tiveram a gentileza de me esperar.

O julgamento consumiu toda a manhã, a sentença poderia ter sido lida uns dias depois, mas a amabilidade do juiz fez com que, assim eu ficasse durante a hora de almoço, logo a proferiria ao começo da tarde. E eis que esse motivo, invulgar, digamos, proporcionou uma refeição com aqueles meus ex-alunos; e que durante o convívio à mesa um deles me perguntasse se era verdade que eu, conhecido como Advogado e para si como professor, escrevia sobre o tema que, na sua expressão, era o da “espionagem”, termo que evitei dizer por não gostar de dar ao assunto uma aparência novelística quando era História o meu propósito.

Com a timidez de quem vê revelado um outro lado do seu ser que não tem a ver com a indumentária com que me apresentava quando das aulas ou no exercício da Advocacia, como se, secreto o tema, secreto fosse também o meu modo de me relacionar com ele, admiti que sim. Aberta essa porta do oculto, o resto do tempo seria gasto comigo a contar o algo que tinha escrito e sobretudo o imenso que julgava poder escrever.
Regressados ao Tribunal, o imprevisto aguardava-me. Gentis, fizeram questão de me apresentar ao Procurador da República, que me embaraçou com referência aos meus livros jurídicos, e tão didáticos apenas até agora eles são, e me surpreendeu ao dar conta de que o seu jovem Colega estagiário já lhe havia dado conta daquela minha encoberta faceta de investigador das coisas da guerra secreta.

E eis que surgiria quanto parecia estar predestinado. “O Senhor Doutor e os Colegas não sei se sabem, mas aqui por Castelo Branco há um homem que esteve envolvido ‘nessas coisas´”, disse o titular do Ministério Público para espanto de nós os três. “Sim, sim”, continuou, “é um homem já de idade, que passa todos os dias por aqui pela rua, um ar triste, jornais debaixo do braço”.

Pergunto-me hoje ainda porque mistério o meu espírito me fez disparar a frase: “Esse homem chama-se Rogério Magalhães Peixoto de Menezes.” E viria a confirmar que era. Na lista telefónica local o seu nome vinha discreto: “Menezes, R.” Sem mais. Semanas depois regressaria, de comboio, a Castelo Branco, porque conseguira localizá-lo e ele aceitou receber-me. Foi um momento notável. Morreu, ia a escrita do livro que lhe dedicara a menos de metade. Anos depois, ao viajar pelas Beiras, fiz questão em encontrar a sua sepultura. Procurei, um a um, seguindo a cronologia dos sepulcros, o seu local. O homem que, juntando a ilusão da prova documental à verdade da vida, morreu duas vezes. O seu caso de espionagem, o julgamento por alta traição, a condenação à forca tinham sido, assim o procurei demonstrar em livro, mero pretexto para uma jogada diplomática de alto nível. Salazar comprometeu-se no caso. O rei Jorge VI também, ao comutar-lhe a pena. Agora era apenas um rodapé na História. Clandestina a vida, oculta a primeira morte.
Texto José António Barreiros, Advogado