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Cultura Livro de lembranças

O menino entre os doutores

Neste mundo de autopromoção, estas crónicas de factos modestos têm o seu quê de ridículo. A ideia com que se fica hoje é que tudo já nasce em grande. Hoje passeio entre livros e termino em Paris.

Era Bastonário o saudoso Ângelo de Almeida Ribeiro. E eu era um infante, muito jovem pela idade e ainda mais pela aparência, quase menino entre os doutores. A Biblioteca da Ordem era um dos meus poisos. Entrava-se na sala e à esquerda, D. Emília Scarlatti, que haveria de publicar um livro sobre “Os Homens de Alfarrobeira”, premiado pela Academia das Ciências, e de que seu próprio bolso, vencendo restricções financeiras e alguns empecilhos de má vontade, comprara milhares de fichas com que compôs, como soube, o catálogo ideográfico dos livros e artigos. Do lado diametralmente oposto, Teófilo de Malta Jotta, de requintada elegância no porte, bibliotecário-chefe, que deixou na nossa revista inúmeros apontamentos sobre juristas de renome cuja lembrança esmaecia. Terceira figura, Homem de Figueiredo, que integrara as célebres “listas do MUD”, o Movimento de Unidade Democrática de oposição ao Estado Novo, de que me ficaram na memória imediata as etiquetas que meticulosamente confeccionava em caligrafia esmerada para assinalar, na lombada, a cota de cada livro, coladas com goma arábica.

O ambiente era cuidado, amável, ali se reuniam, como em tertúlia, Advogados e magistrados. Um halo de fraternidade unia todos e de mútuo respeito. Universitários vinham aqui fazer as suas pesquisas. Livros mais difíceis de encontrar por aqui se chamavam, mesmo os mais onerosos, como a então procuradíssima “Enciclopedia del Diritto”, idealizada por Antonio Giufrrè e Francesco Calasso em 1953 e que foi publicando os seus mais de 50 volumes até 1970. Trocavam-se impressões jurídicas sobre casos que afligiam.

Assisti ali a conversas em que se procuravam artigos da “Revista de Legislação e Jurisprudência” pelo ano em que se teria dado qualquer evento de família, ou em que se teriam ido passar férias a qualquer lugar. O Direito e a vida pessoal, tudo se misturava harmoniosamente.

Mais tarde, aberta à leitura nocturna, a Biblioteca admitiria nos seus quadros Joaquim Parro, personagem queirosiano, de aprumado recorte, “liberal em política, socialista em economia política e, no mais, um criado às ordens de Vossa Excelência”, como um dia, com ironia, se me apresentou.

E, no entanto, eram tempos de combate de ideias esses que se me acentuaram entre 1966, ano em que entrei na Faculdade, e sobretudo a partir de 1968, em que comecei a ser passageiro frequente entre as estantes. O local respirava-o.

Formei-me assim. Tinha sido um aluno vulgar na Faculdade, desligado do Direito, que só aqui senti, enfim, no seu pulsar. Por um lado, porque aqui estava o fluir histórico desse combate pela Justiça, na forma do que se escreveu tecendo armas argumentativas em torno do que se queria como melhor; por outro, porque as pessoas, na sua diversidade, encarnavam esse pluralismo de ideias que eram a expressão da liberdade.

O Advogado José António Barreiros, com 28 anos

Lembro, com quase veneração, o último número da “Gazeta da Relação de Lisboa”, editada pelo Professor José Maria Vilhena Barbosa de Magalhães, Bastonário que foi da nossa Ordem, magrinho porque, enfim, vedado pela Comissão de Censura por causa de um artigo que ali se publicara em torno da Concordata com a Santa Sé.

Foi nesta Biblioteca e ante livros assim que se me formou a revolta cívica ante o desrespeito pelo livre pensamento, a vontade de me unir a esse pelotão dos que viam o Direito como, afinal, “a luta pelo Direito”.

Um dia, o Bastonário mandou-me chamar ao Gabinete. Queria saber se eu já tinha ido a Paris. E eu, com a modéstia dos meus meios, não tinha sequer sonhado que me seria possível ir a Paris. Pois iria. Representaria os jovens Advogados portugueses na Sessão Solene da abertura do estágio organizada pelo Barreau de Paris. E que falasse com o Jorge Sampaio, que tinha sido ele a ir na vez anterior.

Um dia, o Bastonário mandou-me chamar ao Gabinete. Queria saber se eu já tinha ido a Paris. E eu, com a modéstia dos meus meios, não tinha sequer sonhado que me seria possível ir a Paris.

E assim foi. Falei. Deu-me conta de que era uma cerimónia inesquecível. Colegas de todo o mundo para ali convergiam. Percebi, pela primeira vez, o cosmopolitismo. Na mesa do jantar, no Maxim’s – para o qual o Jorge Sampaio me preveniu que teria de envergar um smoking, e lá foi a D. Maria Ernestina Pina do Amaral, minha Mãe, habilitar o seu filho com a necessária farpela –, ao meu lado direito, um francês, que defendia com unhas e dentes a política portuguesa em África, na luta, que ele assim entendia, do Ocidente e da civilização cristã, à esquerda, um holandês que nos crucificava como colonialistas e joguetes do reacionarismo fascista. Eu, no meio, sugeri que trocassem de lugar e se entendessem um com o outro. Depois tudo terminou num bar de music hall, onde, atónito, vi pela primeira vez um show de travestis. “I prefer women, my friend”, acenava-me um pantagruélico “barrister” inglês, copo de uísque na mão: “Let’s go to the Crazy Horse!”