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Cultura artes & letras

A obra de António Moniz Palme

A obra de António Moniz Palme

Na aguarela, o espírito criativo do artista explode sem qualquer tipo de peias, de entraves determinantes pelas regras estabelecidas.

Tentarei alinhavar alguns episódios que revelem a minha faceta de pintor e as motivações para iniciar a difícil e misteriosa arte de aguarelista. Na verdade, na aguarela, o espírito criativo do artista explode sem qualquer tipo de peias, de entraves determinantes pelas regras estabelecidas. E tal atraía-me.

Claro que comecei a desenhar muito novo, a fazer caricaturas dos meus amigos, dos conhecidos e de qualquer um que topasse no caminho. Pretendi frequentar as Belas-Artes, em Lisboa, mas o meu Pai sensatamente disse-me que me poderia matricular e realizar esse sonho mal acabasse o curso de Direito. Na altura, não gostei muito da solução paternal, mas como, no 3.º ano de Direito, já estava envolvido na problemática jurídica até aos ossos, continuei o curso de que estava a gostar muito, tendo acabado o último ano após o regresso do cumprimento do serviço militar.

Entretanto, ia desenhando a torto e a direito, muitas vezes à pena. Os meus livros escolares estavam cheios de rabiscos com situações académicas e caricaturas dos meus indefesos amigos. Certo dia, nos Gerais, na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, apareceu numa parede uma caricatura pouco respeitadora, que pretendia ser o professor de Direito Constitucional, o Prof. Doutor Carlos Martins Moreira, amigo de meu Pai e da minha Família, muito popular devido ao seu inseparável monóculo. Claro que a primeira vez que encontrou o meu progenitor, na Baixa, em Coimbra, fez alusão à referida caricatura, que, pelos vistos, tinha ganho fama, apesar de muito mal feita. O meu Pai entendeu a referência como uma queixa de falta de lealdade da minha parte. Era um santo, mas não perdoava faltas de educação aos filhos. Quando me encontrou, para começar a reprimenda deu-me logo um tabefe, censurando-me pelo meu acto indigno em relação a um professor, ainda por cima seu amigo. Limitei-me a protestar a minha inteira inocência. Aliás, só mais tarde tinha sabido da existência da infeliz caricatura. Mal encontrei o Prof. Doutor Carlos Martins Moreira, no Nicola, cerimoniosamente dirige-me à sua beira e declarei que não tinha sido eu o autor de uma caricatura tão mal feita e que a sua insinuação de que era eu o seu autor me tinha valido um injusto bofetão. Ficou para morrer e, pegando-me pelo braço, quis que o acompanhasse num café, para resolvermos tão grave diferendo. ”Se não foste o autor, então quem foi? Muitos disseram que o artistinha devia ser a tua pessoa.“

Comecei a desenhar muito novo, a fazer caricaturas dos meus amigos, dos conhecidos e de qualquer um que topasse no caminho.

A única coisa que podia acrescentar em favor da minha inocência é que as minhas caricaturas tinham outro estilo, pois eram de melhor qualidade, e, pegando numa folha de papel branco, mesmo na mesa ocupada com as chávenas de café, fiz a caricatura do Carlos Moreira com meia dúzia de traços. Gostou, acreditou em mim e andou a mostrá-la a toda gente. Ficou provada a minha inocência.

Mais tarde, além do meu trabalho de Advogado, estive na gestão do pessoal e no apoio jurídico dos Caminhos de Ferro Portugueses e fiquei completamente apaixonado pelos comboios, principalmente pelos velhos comboios a vapor. A movimentação ao som das suas batidas tão características lembrava-me o compasso do malhão e o misterioso fumo que, na altura, permanentemente envolvia a ferrovia, tendo como fundo o silvar das velhas locomotivas, constituíam um autêntico dialecto, que teria forçosamente que entender custasse o que custasse. Esta a razão por que comecei a pintar aguarelas, arte bem mais difícil que os outros ramos da pintura.

Após o começo da carreira de pintor amador, fiz inúmeras exposições colectivas e individuais. Falarei apenas das últimas, realizadas, sob o tema ferroviário, em Torre de Moncorvo, em Oliveira de Azeméis, em S. Pedro do Sul e na Estação de S. Bento, no Porto, sobre os comboios a vapor e sobre o caminho de ferro e a Primeira Grande Guerra. A última exposição foi na Bienal de Vila Nova de Cerveira. Recordo que já participei numa exposição colectiva na Ordem dos Advogados e no Palácio da Justiça do Porto cujo tema foi sobre as estações de caminho de ferro abandonadas…!

As aguarelas de António Moniz Palme

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