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Escrever Poesia

Escrever Poesia

Publicamos alguns poemas inéditos do Advogado José Coelho Alves, também poeta sob o pseudónimo de Adalberto Alves, que nos escreve sobre o “acto de poetar”.

Como autor, não sou capaz de dizer o que quer que seja sobre a motivação de um poeta relativamente ao acto de poetar ou sobre a natureza da correspondente escrita.
Em boa verdade, e falando do meu caso, nunca formulei o “propósito” de me tornar poeta.

Foi algo que me “aconteceu”, quase a seguir a ter aprendido a ler e a escrever, mal tinha cumprido a instrução primária: lembro-me de que, seguramente por volta dos 13 anos, já escrevia poesia.
Aliás, duvido que alguém possa genuinamente explicar o como e o porquê de tal metamorfose.

No meu caso, nem sequer posso invocar os álibis habituais, da influência do ambiente cultural familiar ou do “assalto” à rica biblioteca do avô. A minha família era modesta, embora não iletrada. Por isso, nenhuma dessas explicações posso invocar, nem creio, aliás, que elas expliquem coisa alguma.

Como é que a pulsão da escrita poética terá surgido num António Aleixo, que também “não consta que tivesse biblioteca” (Pessoa), tal como noutros notáveis poetas populares, muitos deles analfabetos?
As questões que mais pertinentemente se poderiam colocar nesta matéria são: donde surge o poema? O que é a poesia?

Elas são, todavia, enigmáticas e de impossível resposta assertiva. Têm, no entanto, a virtualidade de constituir um fecundo campo de lavra literária, uma vez que “entre nós e as palavras” (Cesariny) há um vasto pórtico para lá do qual os poetas encontram o seu reino. Essas interrogações têm sido, recorrentemente, tema favorito da minha obra literária.

A Poesia não tem, por essência, uma natureza explicativa, já que ela se expressa explorando e interrogando, e é assim que bate à porta dos labirintos do ser e do sonho. E, ao fazê-lo, lança um dardo alucinante, que, potencialmente, precipita cada leitor em direcção a múltiplas portas que dão para a perplexidade da existência.

O texto poético é abissal e disseminatório,
fazendo de cada leitor o poeta de cada poema.

Por isso, o texto poético é abissal e disseminatório, fazendo de cada leitor o poeta de cada poema que lê, procurando decifrar o seu mais íntimo segredo. Não admira que nesta perspectiva, em termos epistemológicos, a crítica literária não seja encarada senão como um vão exercício, o que implica que nem sequer o próprio poeta seja crítico abalizado e definitivo na interpretação daquilo que escreve. E tal deve-se ao facto de ler implicar sempre uma projecção individual sobre o texto literário abordado, ou seja, postula uma atitude criativa da parte de quem lê.

As críticas aceitáveis não são aquelas que, com o bisturi em punho da fria mente, esquartejam, dividem e classificam o corpo do poema na mesa de tanatologia literária, mas antes aquelas que, com a luz do coração, percorrem, com humildade, a paisagem interior dos versos, procurando surpreender neles a força onírica que os fez brotar e os sustenta, para além do tempo. Deste modo, o leitor pode voar, livre do preconceito, nas asas da sua própria imaginação, sem que ninguém lhe segrede “vem por aqui!” (Régio).

A Poesia é talvez, ainda, no meu fraco parecer, nos tempos conturbados que vivemos, algo de tão inútil como uma flor, um poente ou um rouxinol.
Poemas e texto: Adalberto Alves


Poemas Inéditos

contemplei o firmamento numa noite escura.
vi milhões de estrelas e galáxias e planetas.
mas isso, de todo o cosmos, eram só valetas
espreitadas pelo buraco de uma fechadura.

vem! senhora minha pressentida,
brisa tão colorida e sussurrante
em todos os lugares que percorri.

vem! eternamente pura e única,
dona mística de todos os anseios
evadidos de meus frustres sonhos.

vem! aparição em meu ser caída,
nascida do clamor deste suor,
bálsamo veloz das minhas dores.

vem! presença e desejo de palavras,
ó tu, sempre tão velada e esquiva
se te estendo minha boca e dedos.

estarei, como sempre, à tua espera
na noite e aurora, em cada dia.
vem até mim, ó amada Poesia!

a noite cerzida pelos doces murmúrios dos amantes
tem gritos das cruas luzes que nela veio pôr o nome
do Deus que a criou. nos glaucos mares dorme um
sem fim de marinheiros, cujas almas, pela noite fora,
se alevantam do fundo dos abismos e vêm boiar
fascinadas pela lua. nas cidades ao longe, de onde
todo o viço foi banido, soçobram as pobres almas
dos viventes. a estrada de prata aberta sobre o mar
é uma miragem que atrai os prisioneiros de delidos
paraísos, vem a aurora, os marinheiros rogam logo
ao dia que os volte a empurrar para o profundo lodo.
os luzeiros do céu, também eles, queixam-se da
curvatura do espaço que amolga a proa ao tempo.
e tudo se enrodilha num jogo sem fim de amantes
iludidos, de viventes mal vividos e de defuntos sem
norte. a noite é íntima de todos porque todos usam
vestes recamadas de sombras brilhantes ou obscuras
luzes. há muito já que a Medusa perdeu as serpentes
dos cabelos e também são muitos os tonsurados de
esperanças e de sonhos. todos, à noite, olham o céu
difícil, esperando um sinal de fogo para se abrigarem.