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Cultura Artes & Letras

A fotografia ensina o olhar

A fotografia ensina o olhar

O Advogado Gonçalo Capitão fala-nos da sua paixão pela fotografia.

Quando recebi o convite para participar neste número do Boletim da Ordem dos Advogados com um texto, em jeito de "exposição de motivos" sobre o meu trabalho fotográfico, hesitei.

Por um lado, é-me particularmente difícil dizer que não a qualquer apelo da minha Ordem. Por outro, é-me especialmente difícil escrever sobre uma paixão que não me preocupo em racionalizar.

É para mim evidente que o gosto pela fotografia surgiu associado ao gosto que tenho em passear por Portugal e apreciar as tão diferentes paisagens que o mesmo nos apresenta. Como é inegável a sua associação à admiração que tenho pela pintura.

A minha experiência diz-me que a fotografia proporciona o momento que fica registado.

A isso não será alheia a necessidade de, por vezes, termos que nos abstrair da ansiedade e tensão, sempre presentes na Advocacia, não só para recuperarmos força, como, especialmente, para readquirirmos o distanciamento que nos permite manter o discernimento e lucidez que o dia-a-dia vai consumindo.

A dedicação à fotografia surgiu, assim, na confluência entre uma paixão e uma necessidade. A partir daí, foi, e continua a ser, um processo evolutivo, sem fim à vista, marcado pela velha regra de que quanto mais se aprende, mais se gosta, e quanto mais se gosta, mais vontade se tem de aprender.

Da experiência que fui adquirindo, e deixando de lado as questões técnicas, há inegavelmente dois aspectos que me surpreenderam pela positiva. Por um lado, a fotografia ensina o olhar. A quantidade de pormenores ou de perspectivas que nos escapam normalmente e que vamos "aprendendo" a ver por habituação, à procura de motivos para fotografar, é absolutamente notável.

Por vezes, ruas que percorri vezes sem conta aparentam uma significativa transformação por lá ir fotografar ou, simplesmente, porque quando lá passo não resisto a imaginar um recanto ou uma cena que merecesse uma fotografia (mesmo sem ter a máquina comigo). Por outro, a fotografia faz-nos ir a locais que de outro modo não nos despertariam interesse.

É comum dizer-se que a fotografia imortaliza um momento. A minha experiência diz-me que a fotografia proporciona o momento que fica registado.

Foram muitos, ao longo dos anos, os momentos que só existiram (para mim) pela simples razão de que pretendia tirar uma fotografia. Seja pelo local mais inacessível a que nunca me tinha motivado a ir, seja pela hora (normalmente madrugadora) que me impus.

Diria que a estática da fotografia é enganadora, quer pela dinâmica da sua captura para quem a tira, quer pela dinâmica que gera em quem a vê. Cada fotografia tem uma história e serve de base para outras histórias.