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Cultura Artes & Letras

Na senda da memória com Florentino Marabuto

Na senda da memória com Florentino Marabuto

deepblue4you

“Queríamos ser escritores, poetas, advogados, enfim, mudar o mundo através da escrita.”

Caminhemos um pouco na senda da memória. Recuemos ao tempo em que deixei naquele caderno de capa cinzenta, mole, as primeiras impressões do que me dizia quanto me circundava. Pequenas reflexões, alguns poemas ou o que então tinha por poemas, textos sobre as coisas, as pessoas, os sentimentos, o mundo. Lia muito, anotava a lápis o que me parecia mais significativo, deixava mesmo pequenos comentários apreciativos, como regra, do que cada autor dizia. Não era o único, ler e escrever era quase uma moda no meu circulo de amigos. Depois trocávamos o que escrevíamos para apreciação geral.

Queríamos ser escritores, poetas, advogados, enfim, mudar o mundo através da escrita. Nas férias, cada um de nós ficava desesperantemente sozinho. Nessa altura eu não escrevia poemas em guardanapos de papel no café, nem olhava para quem passava buscando tema que me motivasse. Ficava horas a fio, eternas noites sentado a uma mesa numa espécie de quarto num velho celeiro que havia na casa dos meus avós. As noites eram quentes e não se ouvia vivalma, sobretudo depois das duas da manhã, quando cessava o barulho de automóveis na estrada próxima. Às vezes lá se ouvia um grito na distância ou o rumorejar da cidade próxima. Tempo para ler e escrever, que havia sempre um livro de poesia, uma caneta e o meu velho caderno de capa cinzenta.

Correram as Primaveras, a um caderno sucedeu-se outro, o velho celeiro viu-me partir para outras paragens. Continuava a escrever sempre que o tempo o permitia. Conheci poetas, escritores, trocava impressões sobre os temas, o estilo, a geografia das nossas esperanças.

Quase desisti, quase morri, perdendo-me no dia-a-dia das necessárias escolhas que a vida nos faz enfrentar. Amei e por amor recomecei. Hoje acho que se recomeça sempre por amor, a alguém, ao acto de viver, ao futuro. Escrevia uma poesia límpida, clara, sensível. Às vezes repetia-me, não me perdoava o lugar-comum, o cliché, o vulgarismo. Nem sempre o conseguia, sei-o hoje como antes o intuía. Escrevia para “ela”, por ela…sentia que as palavras mediavam o que pensava, a minha linguagem era o que lá estava e o que lá não estava, a nuvem e a realidade, o doce e o amargo… mas não deixava de ser eu. Escrevia por sentir que podia dizer muito mais do que as palavras nuas que nos rodeiam. Escrever era um acto de amor. É verdade que não sacrifiquei a minha vida, como Cernuda, nem abandonei o futuro para construir uma obra. Fiquei aqui. Fazer um livrinho, ainda que tardio, deu-me uma enorme ternura. Um dia voltarei ao velho caderno, agora amarelo, a ver se ainda tem a seiva desses tempos… hei-de descobrir ao menos um poema que me fale de futuro.

Esquecimento
Esqueci-me dos teus olhos
em ruínas,
como um vento leve
no fim do Outono.

Era o que restava
de um longo esquecimento:
a rosa, o olhar
e o carvão em brasa
das noites frias.
Depois, queimei alguns papéis
e fiquei tão cego
como uma pedra.

Instante
Os cabelos da noite
recolhem, de manhã
as sombras.
Uma palavra única
preenche o espaço
deixado ao abandono
pela chuva.

A espera não deixa pensar
no que está para lá
do horizonte.
De súbito, colho
a flor do teu olhar.