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CULTURA LIVRO DE LEMBRANÇAS

Quando fui nome de rua!

Os amigos lisboetas, indo a Sintra, em veraneio romântico ou diligência de profissão, perguntavam-se, atónitos, como é que eu já tinha nome de rua. Sim: a minha placa era igual às que assinalavam as artérias do local!

Na aristocrática vila eu tinha-me promovido, sem saber, à dignidade da toponímia municipal, quando queria, apenas e modestamente, anunciar-me aos possíveis constituintes.

Foi em Janeiro de 1974. Acabara de receber carteira profissional de Advogado, em magra cartolina branca, letras de esmerada caligrafia, francesa. Vivia então em Sintra. E tinha de iniciar a profissão. Nesse mesmo ano, nesse mesmo mês, entrei para o Quartel em Mafra, soldado cadete 153053/70.

A memória, que me tem defendido das amarguras, já não guarda como conjuguei esse patriótico serviço militar, o 25 de Abril à minha espera, poucos meses depois, com a abertura do meu primeiro escritório.

Sei, sim, que foi em Sintra, na rua que desce da estação para a Câmara Municipal, onde era então o Tribunal, este com dois juízos, e bastavam para aquela comarca escassamente industrial, decadentemente aristocrática e ainda essencialmente rural na sua litigação, já a pejar-se de dormitórios em cimento armado.

Filho de solicitador, foi minha mãe, que ajudara meu pai no seu escritório em Malanje, cidade onde me deram o ser, quem conseguiu descobrir o local e quem se disponibilizou para ajudar o filho, já que fora apoio de seu marido.

O espaço estava disponível. Tinham estado ali instaladas as lendárias Queijadas Mathilde, loja fundada em 1850 por Matilde Soares Ribeiro, do lugar de Ranholas, fornecedora, aliás, de Sua Majestade Dom Fernando II.

Uns móveis em segunda mão, um tabique a separar a inutilmente extensa sala de espera do gabinete “do Senhor Doutor”, deram parca decoração ao lugar. Mais uma máquina de escrever, extenso carreto, para poder preencher mapas em A3 e suportar, quando requeria ao Tribunal, em “papel selado”, essa realidade que parecia imorredoura, criada no final do século XVII para a correspondência dos súbditos às senhoras autoridades, papel irmanado com tudo quanto era exigido, vigiado pelo olho atento das secretarias, sob pena de rejeição da prosa.

Picasa

E como era arte e ofício! Para os articulados dirigidos a juiz, a primeira folha selada, o dito original, mais tantas outras folhas, seladas também, cada uma para cada uma das partes que não vivesse em economia comum, e mais ainda o papel almaço para a chamada “reforma dos autos”, no caso de se extraviarem, tudo isso azul pautado e claro, a encher o grosso molho, a cópia em papel de seda, que ficaria para o meu ainda magrinho arquivo.

Mais: tudo entremeado com folhas de “papel químico”, para que cópias ficassem, a carbono, e assim cada letra martelada no original fosse replicada em todo o conjunto de papel, que mais parecia um pastel de mil-folhas. Dactilógrafo forense, furibundo pianista.

Era prodígio de perícia e temor. Um lapso na tecla e lá tinha de se “safar” o erro em cada uma de todas as folhas, com uma “borracha de tinta” – algumas com uma escovinha para espalhar o miolo desfeito da goma rasuradora, quando não, era tudo à força de sopro e havia que ter bons foles para ser exímio.

Ah! Sobretudo, que isto de uma pessoa se corresponder com o Estado tinha regras férreas: como o papel, o selado e o almaço, tinham linhas, havia que garantir não se escrever fora das margens na vertical, nem desalinhando com elas na horizontal, pior esforço do que tentar manter um avião estabilizado em dia de turbulência, articulando nariz, cauda e as asas num mesmo plano geométrico.

Mas o que importa, e ao que vim, fica aqui. Eu tinha de arranjar uma “sinalética”, como agora se diz, uma “placa”, como se dizia então, com o meu nome e por baixo a palavra “Advogado”, anunciando-me aos esperados “clientes”.

O estilo então vigente era em fundo preto, mortuário, letras douradas, de lápida funerária, horror ao meu gosto ansioso de vida. Só que estava na zona dos mármores de Pero Pinheiro, de onde vieram, cortados pelo mestre canteiro Cypriano Francisco, as pedras da Basílica da Estrela, em Lisboa. E não havia que hesitar: mandei fazer, sim, em recorte quadrado, mármore branco perlino, a minha “placa” e nela nome e profissão.

Surgiu o inesperado. Os amigos lisboetas, indo a Sintra, em veraneio romântico ou diligência de profissão, perguntavam-se, atónitos, como é que eu, rapazito a tropeçar nas leis, já tinha nome de rua naquela vila. Sim: a minha placa era igual às que assinalavam as artérias do local!