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CULTURA ARTES & LETRAS

A escrita poética e um poema novo de Aurelino Costa

A escrita poética e um poema novo de Aurelino Costa

deepblue4you

Aurelino Costa queria viver em poesia. Como isso não parece ser possível, tornou-se "dizedor" desassossegado. Advogado, poeta, actor de cinema às vezes, define-se como um "dizedor de poesia”.

Há um certo non-sense em perguntar: porque escreves? Alguém pergunta: porque respiras? Alguém pergunta: porque te alimentas?

O acontecimento da escrita é uma vespa sorrateira que se aloja nos dedos, oriunda da calda metabólica. Uma matéria negra entre as visibilidades da esplenectomia. Nos laboratórios onde os funcionários catalogam, o momento é rastreado como sinapse, epifania, construção. O fluido da palavra, se analisado quimicamente, pode, por exemplo, conter excesso de ácido úrico, um inchaço, um enfarte que se aposenta no palimpsesto. Só depois da evacuação de tal fluido se pode constatar se houve adição do ADN da multitude. Em termos jurídicos, talvez seja, não um megaprocesso, mas um metaprocesso. E, no entanto, é apenas uma gota, um suor, uma lágrima. Mas em seu acontecer é um corpo que rebenta deflagrado pela dinamite do silêncio. Não se trata de acto criminoso: não há oportunidade nem motivo, mesmo que seja um Leit-motiv.

Há dias em que escuto silêncios vazios.
Retraídas as mãos, pousam numa flanela seca,
onde a ferida se oferece à compaixão das estantes.

Falo das horas que à altura do corpo ganham nódulos.
Os sequazes num ritual de cambraias prostram bacias de mel queimado,
onde o enxofre sobressai e pode matar.

As velhas caixas de armazenar milho eram, assim, desinfectadas.
Bastava uma telha com enxofre, ateada. Tudo o que é bicho
e gorgulho morre. O milho resistirá?

A posteriori, o leitor, o “hipócrita leitor, meu semelhante, meu irmão”, de que falava Baudelaire, é que criará os motivos que terão levado à excreção da escrita. O corpo daquele que se alivia raramente consente um estado de ubiquidade para si mesmo. A intensidade obriga ao cerne de todos os incêndios convectivos, à saída de todos os gusanos da sua zona de conforto. Só depois a criatura estará sujeita aos bisturis de toda a espécie. Ou talvez a criatura seja apenas um pavio à espera da luz de quem o viva. Ou a raiz contra a rasura, sem que a raiz conheça, como a Esfinge de Tebas, quem é. Ou, de forma mais holística, quem está.