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Cultura artes & letras

Morreram os literatos do Direito

Advogado e escritor, Pedro Guilherme-Moreira afirma que: “Morreram os literatos do Direito. Os que nascem, os que ficam, não chegam para formar uma massa que se veja.”

Afirmação polémica e sem qualquer apoio estatístico. Mas é o que vê e sente o escritor e Advogado que vos escreve. Não é de agora que me sinto sozinho nos átrios dos Tribunais, onde nunca posso falar de literatura. Já passei as duas décadas de exercício e sempre foi assim: ao princípio, quando os últimos decanos da oratória ainda nos deslumbravam na barra, eu não tinha coragem de falar de livros. Estava demasiado preocupado em não perder, e era muito provável que perdesse. Queria aprender, mas não literatura, porque afinal a literatura já era a minha maldição, envenenava-me o sangue desde miúdo, não conseguia escapar-lhe, morreria por ela como por um filho, uma mulher ou um amigo. Ainda assim, tenho hoje outro conceito de cultura literária. Cultura literária não pode ser apenas os cânones ou os clássicos. A cultura literária já está nos telemóveis e nos tablets.

Se me “googlarem”, descobrem tudo. O escritor, os livros, os poemas. Entretanto, eu sou o que escrevo, nada mais nem ninguém.

E se, como escritor, estou amaldiçoado por uma doença inescapável, como espectador de cinema ainda sobrevivo pior do que como leitor. Como criador, invejo o cinema, porque o cinema tem armas que o livro, sendo a mais maravilhosa de todas as invenções, não tem. O livro é um meio demasiado activo, exige esforço, e, se permite que desfrutemos dele de olhos fechados, não o podemos fazer ao mesmo tempo que lemos, como com a música. Escrevo este texto ao som do “Heilig, Heilig”, do Schubert, a Deutsche Messe D872, em que me viciei no encerramento de uma das minhas séries de culto, “The Leftovers”, que curiosamente me trouxe um génio musical contemporâneo, Max Richter.

E, embora já o tenha visto retratado em muitos filmes, esta nossa nova forma de respirar no espaço público que são os ecrãs dos telemóveis a desfiar murais de pessoas, nunca como no último filme do Zvyagintsev, “Loveless” – na cena das mães no metro de Moscovo –, por sinal um dos candidatos a Óscar de melhor filme estrangeiro, percebi que é lá, nos telemóveis, que a literatura tem de estar. Ela, realmente, já está, porque os miúdos povoam as suas selfies com citações.

Cultura literária não pode ser apenas os cânones ou os clássicos. A cultura literária já está nos telemóveis e nos tablets.

O problema é que os agregadores de citações facilitam-lhes tanto o trabalho, e fazem-no de forma tão ignorante, que as frases de Horácio são atribuídas a Pessoa – aliás, quase tudo na Internet é atribuído a Pessoa. Ou seja, a literatura, a arte, está nos telemóveis não como janela aberta para o mundo que é, mas como instrumento de fechamento do mundo em egos frívolos fabricados à medida. E cada vez é mais a distância entre a nossa fascinante imagem social e a nossa tortuosa forma de ser. Na verdade, para devolvermos a literatura ao Direito temos primeiro de entrar nos telemóveis e nos tablets. Sei que comovo e me comovo com os miúdos nas escolas, onde vou muito como escritor, e tenho a certeza de que esta é a mais notável e informada geração de sempre. Mas saio da escola e, com raras excepções, fui um vídeo no YouTube, uma coisa fixe e passageira, não há follow up, não há leitura, não há arrebatamento duradouro, não há verdadeira partilha.

E o mundo paranóico de hoje não permite que haja relação. A minha esperança é que a semente fique e germine, ainda que muitos anos depois. Será essa a nossa tarefa no mundo de hoje? Pregar, evangelizar e ter a paciência e a esperança de que a maturidade desta geração frutifique e faça frutificar? O novo paradigma comunicacional está demasiado perto no tempo e nem tudo é mau. Se frutificar no geral, frutificará no particular do Direito, porque há muito que esta classe elege os seus Bastonários pelas televisões, e aí não vai haver regresso. Não somos especiais de corrida. Pode até acontecer que a geração que nos sucede saiba repristinar a qualidade e a sabedoria que agora parecem em crise. Pediram-me para me perfilar como escritor. Mas já falamos demasiado de nós próprios. Se me “googlarem”, descobrem tudo. O escritor, os livros, os poemas. Entretanto, eu sou o que escrevo, nada mais nem ninguém.

Texto Pedro Guilherme-Moreira (Advogado)